A Rainha Victoria, lembrada como uma jovem apaixonada ou a “Avó da Europa”,  governou o Reino Unido por 64 anos, entre  20 de junho de 1837 e 22 de janeiro de 1901. Durante a famosa era vitoriana, ela transformou a Europa ao criar tendências que foram de anéis de noivado e casamentos, à moda, arte e indústria. A rainha viveu uma memorável história de amor com o marido, o Príncipe Albert, e nunca se recuperou da morte dele. 

No início de 1840, enquanto os preparativos para o casamento real ocorriam na Inglaterra, Albert voltou para a terra Natal, a Alemanha, onde trabalhou com o pai, Ernest I, Duque de Saxe-Coburgo-Gota, para obter um presente de casamento especial para a noiva: um broche com uma grande safira rodeada por diamantes brilhantes. O duque entrou em contato com um joalheiro em Amsterdã, Wolf Josephus Jitta, para garantir a joia, entregue a Victoria na véspera da cerimônia.

Ela adorou o presente. Em seu diário pessoal, a rainha relatou que o futuro marido havia lhe dado “um broche esplêndido, uma grande safira incrustada de diamantes, que é realmente muito bonita”. No dia do casamento, ela prendeu a safira no corpete de renda do vestido.

Victoria designou o broche como uma “herança da coroa”, destinada especificamente ao uso de rainhas reinantes e consortes. Hoje, ele é ostentado pela trineta do casal, Elizabeth II. A peça serviu de inspiração para a criação do anel de noivado da Princesa Diana e da Duquesa de Cambridge, Kate Middleton.

O Príncipe Albert ficou tão comovido com a reação da esposa que logo planejou outra surpresa. Trabalhando com Joseph Kitching, ele ajudou a desenhar uma pequena coronet de diamantes e safira. Kitching fazia parte da sociedade Kitching and Abud, empresa que fez um trabalho significativo para a família real no reinado de Victoria. 

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Queen Victoria’s sapphire and diamond coronet, Victoria and Albert Museum


A tiara é composta por diamantes engastados em prata, com 11 safiras lapidadas em formato octogonal, cravejadas em ouro. Acredita-se que as pedras tenham vindo de joias que pertenceram ao Rei William IV e a Rainha Adelaide. Kitching recebeu £ 415 para a confecção, algo em torno de £ 37.750 atualmente. 

A rainha usou o broche e a tiara no retrato pintado por Franz Xaver Winterhalter, em 1842. O quadro foi uma das primeiras colaborações entre Winterhalter e a família real britânica e continua sendo uma das imagens mais icônicas de Victoria nos primeiros anos de reinado. O broche estava preso ao corpete, e a tiara estava equilibrada sobre um coque na parte de trás  da cabeça. 

A colocação da tiara pode parecer estranha inicialmente; certamente não é como costuma ser usada. Mas a escolha foi deliberada. Albert, que tinha um olho aguçado para a estética, queria que o retrato fosse uma referência visual às clássicas obras de arte de pintores da corte do século XVII, como Van Dyck. A Rainha Henrietta Maria, esposa do Rei Charles I, era frequentemente retratada usando o cabelo de maneira semelhante.

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Um dos detalhes mais intrigantes sobre a coronet é a flexibilidade, podendo ser usada aberta ou fechada. A Rainha Victoria foi retratada das duas maneiras. Um vídeo especial produzido pelo Victoria and Albert Museum ilustra perfeitamente a elasticidade da peça: 

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Vídeo no Youtube exemplificando a flexibilidade da coronet de Victoria.

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O Príncipe Albert possuía imenso interesse em diversas pedras preciosas de Victoria. Uma anotação do diário da rainha em fevereiro de 1843 evidencia o entusiasmo do príncipe: “Estávamos muito ocupados examinando várias peças de joias antigas minhas, decidindo refazer algumas, a fim de aumentar meus parures. Meu querido Albert tem muito bom gosto e organiza tudo para mim. ”

Victoria tinha um grande amor por gemas coloridas e acessórios transformáveis ​​que podiam ser adaptados de várias maneiras. Ao lado do marido, ela  comprou um par de brincos de diamantes e safira, um colar, uma pulseira, além de peças para outros conjuntos. 

Em 1861, o Príncipe Albert faleceu com apenas 42 anos e a rainha guardou luto pelo resto da vida. Como parte do traje de luto, ela supostamente deixou de lado as pedras coloridas. No entanto,  continuou a usar a tiara de diamantes e safiras sobre a touca de renda branca que usava habitualmente na viuvez.

Uma de suas primeiras aparições públicas significativas após a morte de Albert aconteceu em 1866, quando o Príncipe de Gales (futuro Edward VII) a convenceu a sair do exílio auto-imposto para comparecer à Abertura do Parlamento. A rainha usava a coronet para a ocasião; ao mesmo tempo em que a Coroa Imperial do Estado foi carregada ao lado dela em uma almofada.

Victoria foi retratada usando a tiara em 1874, na pintura de Henry Richard Graves “Retrato da Rainha Victoria”. No quadro, a rainha lia um livro de versos e as vestes pretas foram ligeiramente aliviadas por enfeites de arminho. 

Após a morte da rainha, em janeiro de 1901, a coleção passou para o filho, o novo rei Edward VII e depois para o filho dele, George V. George e a esposa Mary tomaram a curiosa decisão de enviar a peça para fora da linha de sucessão direta. Eles a ofereceram para a única filha, a Princesa Mary e complementaram com  safira adicionais do parure de Victoria, incluindo um colar e uma pulseira. 

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O conjunto passou a ser herdado pelos descendentes de Mary e exibido em diferentes eventos, até mesmo internacionalmente. Em 2016, a Coronet foi vendida a um comprador estrangeiro por US$ 6,5 milhões. Logo, uma proibição de exportação foi imposta e a busca por um comprador do Reino Unido que pudesse corresponder ao preço pedido foi iniciada. Demorou um ano para que um bilionário irlandês-americano, William Bollinger, surgisse. A nova galeria do V & A (Victoria and Albert Museum) leva o nome dele como homenagem.

Victoria e Albert formaram um dos casais mais populares da história da monarquia britânica, retratados em inúmeros filmes, séries e livros. As joias eram uma forma de expressar o amor que sentiam um pelo outro e a tiara de safira é um símbolo nacional dessa devoção. O museu que leva o nome deles exalta partes importantes da vida dos dois e da realeza em geral. 

“Ela tinha uma fraqueza em seu coração pelas joias que Albert escolheu para ela.Não foi apenas um presente, mas um presente de marido para esposa. As pedras são a cor favorita de Albert, o azul. Sempre penso nisso como uma das peças mais íntimas publicamente. O segredo deles juntos. ”

Diana Singer, Historiadora de joias.

Ao falar sobre a exposição do V & A, o curador sênior Richard Edgcumbe descreveu com orgulho a aquisição: 

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“A safira da Rainha Victoria e a tiara de diamante são uma das grandes joias de seu reinado. Desenhado pelo Príncipe Albert, é um símbolo icônico de seu amor, usado por Victoria como jovem rainha e viúva. Somos totalmente gratos a William e Judith Bollinger e seus filhos pelo presente desta obra-prima da arte da joalheria, que está tão intimamente associada a Victoria e Albert e que se tornará parte da identidade da V & A.

A tiara está em exposição permanente no Victoria and Albert Museum, em Londres, desde 2019. Foram necessários três meses para reforma e preparação da nova ala. De acordo com o jornal britânico The Guardian, muitos visitantes foram às lágrimas durante a visita e se emocionaram verdadeiramente ao conhecer a história por trás de um simples acessório. 

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REFERÊNCIAS

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VICTORIA AND ALBERT MUSEUM. Refurbishing our spectacular Jewellery Gallery. Disponível em: https://www.vam.ac.uk/blog/news/refurbishing-our-spectacular-jewellery-gallery. Acesso em: 2 dez. 2021.